Carta aos fundadores das empresas familiares

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O papel chave do Fundador para organizar as próximas gerações, a continuidade do negócio e a harmonia entre a família.

Em empresas familiares, muitas vezes o grande desafio não está na gestão, mas no âmbito das famílias. Existem muitos casos de empresas familiares que desapareceram por questões de conflitos entre os sócios, briga de familiares e desentendimento entre herdeiros.

É preciso trabalhar com a família a questão da continuidade, estabelecer os critérios, os objetivos e os sonhos compartilhados. Trazer as pessoas para o jogo, criando um sentimento de pertencimento em cada integrante.

Dentro deste contexto, o papel do Fundador é fundamental e tem impacto decisivo no futuro da empresa e da família. (Para o bem ou para o mal).

A transição da 1ª para a 2ª geração é sempre muito desafiadora, pois a empresa passa de empresa de dono, onde o fundador manda e desmanda, olha no espelho e decide, e passa a ser uma empresa de sócios, onde a dinâmica é completamente diferente. O que vejo é que a maioria das empresas familiares não estão preparadas para esta transição, pois estão muito habituadas com a figura do patriarca que detém o poder e acaba centralizando tudo.

Conheço muitos fundadores que respeito e admiro, pois são empreendedores que tiveram coragem, assumiram riscos, foram determinados e construíram uma história que deve ser motivo de orgulho para toda família.  Muitas vezes o fundador é autoritário, figura forte e carismática, envolvente e que enxerga oportunidade onde todo mundo vê problema. Essas características importantes do fundador e que foram decisivas para trazer a empresa para momento atual, podem gerar obstáculos que dificultam o seu processo de sucessão.

Fundadores inteligentes constroem famílias empresárias, desenvolvem sucessores, preparam herdeiros que no futuro serão bons acionistas. Eles entendem a importância de combinar as regras do jogo de forma clara, justa, com equidade e muita transparência, envolvendo todos os familiares. Sim, todos.

Para continuar a trajetória de sucesso no futuro, construindo novos ciclos de crescimento, aumentando o patrimônio da família e a competitividade do negócio, as empresas familiares precisam deixar as coisas organizadas para as gerações seguintes. Precisam ter coragem de trazer o assunto para a mesa e assim evitar possíveis conflitos que podem ser evitados.

Com o desejo verdadeiro de ajudar fundadores a preservar os valores e a harmonia da família e também a continuidade do negócio, coloco abaixo algumas dicas práticas que aprendi e que realmente podem trazer muito benefício e evitar muito problema.

Reflexões e dicas construtivas de um integrante da 2ª geração para Fundadores (pessoas que admiro, respeito e agradeço)

# Tragam o assunto para discussão quando tudo está bem e a família está unida, todos com saúde. Quanto antes começamos a organizar menos difícil fica e maiores os ganhos.

# Tenham coragem de enfrentar conversas difíceis. Olhem nos olhos, digam o que realmente sentem. Não coloquem nada embaixo do tapete.

# Lembrem-se que filho é filho e executivo é executivo, mesmo que seja seu filho. Não misture os chapéus de pai e fundador.

# Não tentem proteger o filho mais “frágil”. Pais inteligentes desenvolvem não protegem.

# Tragam para seu lado um Conselheiro Consultivo Externo e Independente. Essa peça é fundamental para ajudar na mediação de conversas, na condução de assuntos delicados que precisam ser tratados. Escolha um profissional que entenda de empresa familiar, que tenha experiência e principalmente valores aderentes aos valores da sua família.

# Formalizem as coisas. Construam de forma simples, mas oficial um acordo entre acionistas, as regras do jogo, os direitos e deveres de cada um.

# Não tenham medo de delegar, de dizer não sei, de pedir ajuda. Desenvolvam estruturas para que as coisas evoluam e que não precisem passar necessariamente por vocês. Saibam que a medida que a empresa cresce, vocês não vão poder ter tudo sob seu controle, e está tudo certo, seu valor não diminui por isso, ele até aumenta.

# Perguntem para seus filhos quais sãos seus sonhos, aspirações de cada um.

# Contem as suas histórias para todos da família, filhos, netos. Isso gera engajamento, senso de pertencimento, propósito. Ter orgulho de fazer parte de uma família empresária é uma grande força motriz. Herança sem legado não tem vínculo nem envolvimento. Legado tem a ver com conhecer a história, o DNA, as dificuldades, o que gera admiração, gratidão e lealdade.

A continuidade da família empresaria envolve conversas difíceis, temas delicados, temperados com conflitos, sentimentos, ressentimentos e muitas outras emoções. O Fundador precisa ter a serenidade e a sabedoria para endereçar todos os assuntos chaves e entender que somos responsáveis pelo que acontece depois da nossa partida.

Se você é fundador de uma empresa familiar, lembre-se que somos mortais como todo e qualquer ser humano, mas a nossa obra pode ser imortal. Quando o fundador se preocupa em desenvolver os membros da família e construir uma família empresária que tem governança, diretriz estratégica e gestão, a sua obra ultrapassa o limite da sua vida.

Thiago Salgado

Fundador da Famíliia S.A.